Em entrevista nos Jogos da Fenae 2026, a atleta gaúcha, empregada aposentada da Caixa, relembra sua trajetória no vôlei e no tênis, a vitória no transplante e sua dedicação em inspirar vidas através do esporte


Fenae: Silvana, conta para a gente a sua história e como começou a sua trajetória no esporte até chegar aos Jogos da Fenae.

SB: Eu sou a Silvana Baccin, nasci em Bento Gonçalves [RS]. Minha trajetória até os Jogos da Fenae começou aos 9 anos. Fui atleta de voleibol desde criança, passei pela Seleção Gaúcha três vezes, pela Seleção Catarinense e joguei vôlei profissionalmente até os 25 anos. Quando encerrei a carreira profissional, fiz concurso e entrei na Caixa. Na Caixa, representei o Rio Grande do Sul nos meus primeiros Jogos da Fenae, em 1989. Ganhei cerca de seis medalhas de ouro no total pelo vôlei. No final de 1999, fui para Brasília [DF] a convite da gestão de planejamento da Caixa e continuei jogando. Fiquei morando no Distrito Federal por quase 26 anos.

Fenae: Em que momento aconteceu o seu transplante de rim e como foi o processo de recuperação?

SB: Entre 2012 e 2015 eu fiz uma pausa, que foi o período em que passei pelo transplante renal. Eu tenho uma condição genética chamada doença renal policística, que acometeu várias pessoas na minha família e comprometeu minha função renal aos 50 anos. Cerca de sete meses após completar 50 anos, fiz o transplante em Joinville. Quem me doou o rim foi meu ex-marido, já que éramos compatíveis. Como minha filha estava na faculdade na época, fomos morar em Florianópolis. Já se passaram 12 anos do transplante. Tenho muita saúde e o pós-transplante me convidou a retomar a minha vida de atleta, treinando e me dedicando ao esporte.

Fenae: Como você descobriu as olimpíadas para transplantados e começou a participar dessas competições?

SB: Meu mundo como transplantada mudou em 2019, quando fui a Curitiba disputar o 1º Jogos Brasileiros para Transplantados. Foi lá que descobri a World Transplant Games Federation (WTGF), uma entidade vinculada ao Comitê Olímpico Internacional (COI). As olimpíadas de transplantados ocorrem a cada dois anos e têm chancela do COI. No Brasil, ainda temos pouco apoio comparado a países como a França, onde os transplantados têm os mesmos incentivos dos paralímpicos, mas estamos evoluindo.

Fenae: Qual é o seu papel hoje dentro da Associação Brasileira de Transplantados (ABTX)?

SB: A partir da terceira edição dos Jogos Brasileiros, assumi como diretora de Projetos Esportivos da ABTX. Nós organizamos eventos esportivos nacionais e temos o apoio da Caixa há três anos, indo para o quarto ano de projeto. A sede fica em São Paulo, para onde me mudei recentemente. Além do esporte, a ABTX atua fortemente na conscientização sobre a doação de órgãos e na divulgação de informações científicas sobre transplantes.

Fenae: E como tem sido a sua participação nos Jogos da Fenae e em outras competições recentes?

SB: No vôlei, joguei umas sete ou oito edições dos Jogos [da Fenae]. Após o transplante, migrei para o tênis, pois o vôlei se tornou muito pesado para o meu corpo e me deixava com muitos hematomas e lesões da época de alto rendimento. Nesta edição dos Jogos da Fenae estou representando a delegação do Rio Grande do Sul. Também sou tricampeã brasileira nos Jogos da Fenacef (para aposentados). Internacionalmente, disputei meu primeiro mundial na Austrália, em 2023. Em 2024, no mundial de Dresden (Alemanha), conquistei a medalha de bronze no tênis individual. Recentemente, disputei o 1º Pan-Americano de Transplantados, no Uruguai, e ganhei duas medalhas de ouro, no simples 60+ e nas duplas femininas. Aos 60 anos, realizei o sonho de infância de vestir a camisa da Seleção Brasileira. O próximo mundial será em agosto do ano que vem, na Bélgica, e já estou me preparando. 

Fenae: O que o esporte representa para você hoje e qual mensagem você gostaria de deixar sobre a prática de atividades físicas e a doação de órgãos?

SB: O esporte sempre me trouxe um sentimento enorme de pertencimento. Ele me ensinou organização, fé, determinação e confiança. Minha mensagem para as pessoas é: "Ocupe a quadra!". Seja uma quadra, um campo ou uma mesa de tênis de mesa, mexa o seu corpo, pois ele é o receptáculo da nossa alma e bem-estar, e não foi feito para ficar parado. Sobre a doação de órgãos, o transplante não é uma cura, é um tratamento. Honrar o milagre que recebi é viver cada dia com muita gratidão por alguém ter dito "sim". Graças a essa atitude, posso continuar competindo, celebrando e vendo minha família crescer. Cuidem dos seus corpos, porque eles valem ouro.