A tentativa da Federação Nacional dos Bancos (Fenaban) de separar as negociações entre bancos públicos e privados acendeu um alerta entre as entidades representativas das bancárias e dos bancários. A proposta foi apresentada na terça-feira (21), durante a quarta rodada da Campanha Nacional 2026. O Comando Nacional dos Bancários rejeitou imediatamente qualquer possibilidade de fragmentação.

Na avaliação das entidades, a proposta não é apenas uma simples mudança no formato das reuniões, mas uma ameaça a uma conquista histórica que aumentou o poder de negociação dos trabalhadores e garantiu uma proteção aos empregados de instituições públicas e privadas.

A proposta partiu da representação da Fenaban e foi questionada até mesmo pelos negociadores dos bancos públicos presentes à reunião. A coordenadora do Comando Nacional, Juvandia Moreira, reafirmou que a unidade beneficia todos os trabalhadores. “A mesa única protege tanto os trabalhadores de bancos públicos quanto os dos bancos privados, e é por isso que eles querem promover a divisão da categoria. E nós não aceitaremos em hipótese alguma”, destacou.

Para o presidente da Fenae, Sergio Takemoto, não há espaço para aceitar o retrocesso. “Não podemos permitir que as diferenças entre os bancos sejam utilizadas para quebrar nossa organização coletiva. Os bancários têm uma Convenção Nacional porque aprenderam que nenhum trabalhador estará verdadeiramente protegido se o colega do banco ao lado puder ter seus direitos rebaixados. Defender a mesa única é defender a CCT, a Caixa pública e cada direito conquistado pelas trabalhadoras e pelos trabalhadores. A categoria conhece a própria história e não aceitará retroceder”, ressaltou Takemoto.

Da luta pelas seis horas ao reajuste zero

A trajetória dos empregados da Caixa mostra que a organização coletiva sempre foi decisiva para conquistar direitos. Até 1985, os trabalhadores do banco não eram reconhecidos como bancários, cumpriam jornada de oito horas e não podiam se sindicalizar como os demais bancários.

Em 30 de outubro daquele ano, uma greve nacional de 24 horas paralisou agências e unidades em todo o país. A mobilização foi determinante para a conquista da jornada de seis horas, do direito à sindicalização e do reconhecimento dos economiários como bancários.

Em 1992, a categoria conquistou a primeira Convenção Coletiva de Trabalho com validade nacional. Os empregados da Caixa e do Banco do Brasil, entretanto, continuavam negociando separadamente dos trabalhadores dos bancos privados.

As consequências desse isolamento ficaram evidentes durante os governos de Fernando Henrique Cardoso. O período foi marcado por anos sem reajuste salarial, redução do quadro de pessoal, terceirizações e retirada de direitos. A RH 008 permitiu demissões sem justa causa, enquanto os empregados admitidos a partir de 1998 foram submetidos a um plano de cargos e salários com direitos inferiores.

Entre 1994 e 2002, o quadro da Caixa caiu de 65.076 para 55.691 empregados. A Participação nos Lucros e Resultados (PLR), conquistada nacionalmente pelos bancários em 1995, só chegou aos trabalhadores da Caixa em 2003. O intervalo de oito anos mostra, na prática, o impacto de permanecer fora de uma negociação efetivamente unificada.

Uma conquista construída em etapas

A unificação foi resultado de um processo construído em diferentes campanhas. Em 2003, empregados de bancos públicos e privados passaram a participar de uma Campanha Nacional conjunta. Naquele ano, os trabalhadores da Caixa e do Banco do Brasil conquistaram os parâmetros básicos da PLR negociados com os bancos privados.

Em 2004, uma greve nacional unificada resultou em aumento real de salários e abriu um ciclo de 12 anos consecutivos de reajustes acima da inflação, até 2015.

A construção da mesa unificada começou em 2003, com a primeira Campanha Nacional conjunta, e se consolidou nos anos seguintes, com a participação da Caixa e do Banco do Brasil na Convenção Coletiva da categoria.

Para a coordenadora da Comissão Executiva dos Empregados da Caixa (CEE/Caixa), Luiza Hansen, a mesa unificada é fundamental para a proteção dos trabalhadores.

“A Convenção Coletiva garante uma base comum de direitos para toda a categoria, enquanto o acordo específico permite negociar as particularidades da Caixa. Separar as mesas é tentar isolar os empregados dos bancos públicos e enfraquecer a solidariedade construída entre todos os bancários. A história já mostrou que, quando negociamos sozinhos, ficamos mais expostos às decisões de cada governo e de cada direção”, afirma.

Unidade garantiu avanços e proteção

Com a categoria unificada e mobilizada, bancárias e bancários acumularam importantes avanços nas negociações nacionais e específicas. Além dos aumentos reais, a categoria avançou na PLR, conquistou a 13ª cesta-alimentação, a ampliação da licença-maternidade de 120 para 180 dias, a inclusão de parceiros e parceiras do mesmo sexo nos planos de saúde e mecanismos de combate ao assédio moral.

Na Caixa, o período também trouxe a revogação da RH 008, a retomada das contratações, a implantação do Novo Plano da Funcef, a unificação das tabelas do plano de cargos e salários e a criação da PLR Social, que reconheceu a atuação dos empregados na execução de políticas públicas.

Na avaliação do Comando Nacional, a unidade da categoria e a CCT funcionaram como barreiras contra perdas ainda maiores durante os governos Michel Temer e Jair Bolsonaro, quando os bancos públicos e os direitos trabalhistas foram alvo de ataques.

Na gestão de Pedro Guimarães, na Caixa, as entidades denunciaram pressão por metas, reestruturações, fechamento de unidades, sobrecarga durante a pandemia e ataques relacionados ao Saúde Caixa e à Funcef. Mesmo nesse ambiente, a CCT nacional funcionou como uma barreira contra perdas ainda maiores.

Dividir para enfraquecer

Ao propor a separação das negociações, a Fenaban tenta levar a categoria de volta a uma estrutura em que empregados de bancos públicos e privados discutiam isoladamente problemas que são comuns: emprego, remuneração, saúde, metas, assédio, terceirização, igualdade de oportunidades e condições dignas de trabalho.

A tentativa ocorre justamente quando os bancários cobram providências contra o adoecimento da categoria. Na reunião de terça-feira, em vez de apresentar avanços, a Fenaban ameaçou retirar cláusulas de saúde existentes na CCT e sugeriu dividir as mesas.

A próxima rodada de negociação com a Fenaban está marcada para 30 de julho. Antes disso, o Comando Nacional convocou um Dia Nacional de Luta e Mobilização para 28 de julho, quando bancárias e bancários de todo o país voltarão a reafirmar que a unidade da categoria não está em negociação.