Em 25 de outubro de 1975, Vladimir Herzog foi torturado e assassinado pela ditadura militar brasileira. Seu direito de pensar, questionar e exercer o jornalismo foi interrompido pela violência de um Estado que não admitia a liberdade. Exatamente 51 anos depois, neste domingo, 25 de outubro de 2026, milhões de brasileiros irão às urnas para escolher o presidente da República. A coincidência das datas nos convida a refletir sobre algo que ultrapassa a disputa eleitoral: quanto vale a nossa liberdade?

Não por acaso, tramita no Congresso Nacional o projeto que institui o Dia Nacional de Defesa da Democracia em memória de Herzog. A proposta já foi aprovada pelo Senado, mas ainda depende de análise na Câmara dos Deputados. A data carrega uma advertência: direitos podem ser perdidos quando a intolerância se transforma em política de Estado.

A democracia não vive apenas nas instituições. Está no direito de uma mulher trabalhar e ser mãe sem sofrer discriminação. Na oportunidade de uma pessoa negra estudar, trabalhar e ocupar espaços historicamente negados. Na liberdade de amar alguém do mesmo sexo sem ser humilhado. Na possibilidade de um trabalhador reivindicar salário digno sem sofrer perseguição. Democracia é, antes de tudo, o direito de existir com dignidade.

Os avanços não foram um presente. As mulheres brasileiras conquistaram o voto em 1932, depois de décadas de mobilização. Os trabalhadores enfrentaram a repressão para assegurar sua liberdade de organização. A Constituição de 1988 nasceu de uma longa luta contra o autoritarismo e estabeleceu direitos que transformaram a vida de milhões de brasileiros.

É à luz dessa história que devemos examinar as atitudes daqueles que disputam o poder.

Na Assembleia Legislativa do Rio, a trajetória de Flávio Bolsonaro inclui episódios marcantes sobre direitos de minorias e mulheres: em 2009, foi o único deputado a votar contra a ampliação da licença-maternidade para servidoras e se opôs a medidas contra a exploração da imagem feminina, além de ter declarado, em 2011, que a heterossexualidade era o "normal", questionando pais com filhos gays.

A relação da família Bolsonaro com a memória da ditadura também não pode ser ignorada. Em 2016, durante a votação do impeachment da presidenta Dilma Rousseff, Jair Bolsonaro dedicou seu voto ao coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, reconhecido pela Justiça como torturador. Dilma havia sido presa e torturada durante o regime militar. A homenagem, feita diante da própria vítima da tortura, expôs uma das mais dolorosas contradições da história política recente do país: a exaltação de um torturador dentro da instituição que deveria representar a soberania popular.

Em 2025, Jair Bolsonaro foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal por participação na tentativa de golpe de Estado após as eleições de 2022. Seu filho Flávio, agora candidato à Presidência, classificou a condenação como uma “farsa” e negou que os ataques de 8 de janeiro de 2023 representassem uma tentativa de golpe.

Luiz Inácio Lula da Silva tem uma trajetória política marcada por outro conjunto de experiências. Como dirigente sindical, enfrentou a ditadura, liderou greves por melhores salários e condições de trabalho e foi preso em 1980. Participou do movimento pela redemocratização e, como presidente, conduziu governos em que o Brasil saiu do Mapa da Fome da ONU, em 2014 e novamente em 2025. Seu programa atual defende a valorização do trabalho, políticas de inclusão social e a redução da jornada de trabalho.

Neste 25 de outubro, o voto ganha um significado histórico especial. Cada cidadão que comparecer às urnas exercerá um direito conquistado por gerações que enfrentaram a censura, a prisão, a tortura e a morte. Uma conquista que precisa ser preservada, independentemente do resultado eleitoral.

A memória de Vladimir Herzog nos recorda até onde pode chegar um Estado que deixa de reconhecer a dignidade humana. A história de quem resistiu à ditadura nos mostra, por sua vez, que a liberdade não se sustenta sozinha.

Que este 25 de outubro nos lembre de uma verdade que jamais deveria ser esquecida: a democracia pode conviver com as diferenças, mas não pode sobreviver à intolerância que pretende eliminá-las. O Brasil já conheceu o horror de um Estado que calava seus cidadãos. Que nunca mais precisemos perder a liberdade para compreender o quanto ela vale.

Sergio Takemoto, presidente da Federação Nacional das Associações do Pessoal da Caixa (Fenae)