Quando a pandemia chegou ao Brasil, os empregados da Caixa já conviviam com pressão crescente por metas e mudanças profundas no ambiente de trabalho. Nos anos seguintes, a crise sanitária, o pagamento do auxílio emergencial e as denúncias de assédio transformariam a gestão Pedro Guimarães em um dos períodos mais turbulentos da história da Caixa.

Enquanto o banco assumia protagonismo no atendimento à população durante a crise sanitária, entidades representativas denunciavam jornadas exaustivas, ausência de planejamento, precarização das condições de trabalho e aumento do adoecimento entre os trabalhadores

Durante todo o período, a Fenae, a Comissão Executiva dos Empregados (CEE/Caixa), a Contraf-CUT e sindicatos atuaram em defesa dos empregados, da Caixa pública e dos direitos históricos da categoria.

Pandemia: empregados na linha de frente

Em 2020, milhões de brasileiros passaram a depender da Caixa para receber o auxílio emergencial. Nas agências, a cena se repetia diariamente com filas enormes, aglomeração, medo de contaminação e empregados tentando dar conta de uma operação inédita e de enorme proporção em meio ao caos da pandemia, gerando sobrecarga nas unidades.

Para as entidades representativas, o atendimento só foi possível graças ao profissionalismo e ao compromisso social dos empregados da Caixa, historicamente acostumados a atuar diretamente junto à população em programas sociais, habitação e políticas públicas.

Ao mesmo tempo, a Fenae, Contraf-CUT, CEE/Caixa e sindicatos denunciaram a falta de planejamento do governo federal e da direção do banco para lidar com a dimensão da operação. As entidades criticaram a insuficiência de informações para trabalhadores e clientes, a exposição ao risco de contaminação e a demora na adoção de medidas de proteção.

Além da cobrança por equipamentos de proteção individual (EPIs), reorganização do atendimento e testagem, as entidades também se engajaram numa campanha nacional pela vacinação prioritária dos empregados da Caixa, argumentando que os trabalhadores atuavam diretamente na linha de frente do pagamento do auxílio emergencial e estavam diariamente expostos às aglomerações nas agências.

A defesa da vacinação também era apresentada como medida de proteção à própria população que dependia do atendimento bancário durante a pandemia.

Reportagens exibidas pela imprensa na época mostraram o esgotamento físico e emocional dos trabalhadores diante das jornadas exaustivas e do aumento da pressão operacional.

“As pessoas enxergavam as filas do lado de fora das agências, mas muitas vezes não conseguiam dimensionar o desgaste vivido pelos empregados dentro das unidades. Havia medo da contaminação, sobrecarga de trabalho e enorme pressão emocional. Mesmo assim, os empregados da Caixa mantiveram o atendimento à população porque o compromisso social faz parte da identidade do banco”, afirmou o presidente da Fenae, Sergio Takemoto.

Saúde Caixa e conflitos trabalhistas

As negociações do acordo coletivo de trabalho (ACT) durante a gestão Pedro Guimarães também foram marcadas por forte tensão entre a direção da Caixa e a representação dos empregados.

Em meio à pandemia, entidades representativas precisaram negociar garantias mínimas de proteção aos trabalhadores diante do avanço da Covid-19 e das mudanças operacionais adotadas pelo banco. O movimento sindical cobrou que qualquer alteração relacionada às condições de trabalho fosse previamente negociada com os empregados.

Outro foco permanente de conflito foi o Saúde Caixa. As entidades criticaram a manutenção do teto de 6,5% para o custeio do plano pela Caixa e alertaram para o risco de aumento das despesas para os empregados e enfraquecimento do modelo historicamente baseado em solidariedade, mutualismo e pacto intergeracional.

As entidades também cobraram transparência nas informações do plano, suspensão de cobranças retroativas e cumprimento de cláusulas previstas no ACT, como a inclusão de novos empregados no Saúde Caixa.

Durante o período, as entidades reforçaram a defesa do modelo de custeio 70/30 e denunciaram tentativas de reduzir direitos históricos dos trabalhadores.

As negociações dos ACTs ocorreram em meio a um ambiente de desgaste crescente, marcado por denúncias relacionadas às condições de trabalho, pressão por metas e críticas à condução da gestão.

Funcef, governança e representação dos participantes

A alteração do estatuto da Funcef, implementada em 2021, também gerou forte reação das entidades representativas dos empregados e participantes.

Entre os pontos mais criticados estavam mudanças relacionadas à governança da fundação, redução de diretorias, alterações no processo eleitoral e utilização do voto de minerva para mudanças em regulamentos dos planos, ampliando o peso das indicações da patrocinadora na estrutura decisória.

Na avaliação da Fenae e de outras entidades representativas dos participantes, as alterações enfraqueciam a paridade e reduziam a participação dos trabalhadores nas decisões da fundação.

As entidades passaram a defender maior transparência, preservação da representação eleita pelos participantes e proteção da governança da Funcef.

“A Funcef não pode ser conduzida sem a participação efetiva dos trabalhadores. As entidades sempre defenderam governança equilibrada, transparência e respeito à representação dos participantes”, disse Takemoto.

Metas, pressão e adoecimento
Ao longo da gestão Pedro Guimarães, cresceram as denúncias relacionadas à pressão por metas, constrangimentos e adoecimento dos empregados.

Mesmo durante o período mais crítico da pandemia, entidades sindicais denunciaram a manutenção de cobranças consideradas abusivas e incompatíveis com a realidade enfrentada pelos trabalhadores nas agências.

Pesquisa da Fenae divulgada em 2022 mostrou um cenário preocupante de adoecimento entre os trabalhadores da Caixa. Segundo o levantamento, cerca de 80% dos empregados da ativa afirmaram que o trabalho afetava sua saúde.

O estudo também apontou que mais de 90% dos empregados sentiam muita pressão no ambiente de trabalho, enquanto quase 60% relataram já ter sofrido assédio moral dentro do banco.

Entre os trabalhadores que relataram problemas de saúde associados ao trabalho, 75% afirmaram que as questões estavam ligadas à saúde mental.

A pesquisa ainda mostrou que 41% dos empregados vivenciaram a perda de algum colega da Caixa para a Covid-19 durante a pandemia.

Relatos de humilhação e constrangimento também passaram a ganhar repercussão nacional. Em uma das denúncias apresentadas ao Ministério Público do Trabalho (MPT), a Fenae afirmou que empregados eram submetidos a situações vexatórias e práticas consideradas abusivas.

Dados do próprio MPT mostraram aumento das denúncias de assédio moral durante a pandemia, com a Caixa entre os órgãos públicos mais denunciados no Distrito Federal.

Em notas públicas, entidades chegaram a classificar o ambiente interno do banco como resultado de uma “gestão desumanizada”, marcada por foco excessivo em resultados, cobranças abusivas e perseguições.

Além das denúncias, as entidades também cobraram por melhores condições de trabalho e defenderam ampliação do teletrabalho durante a pandemia como forma de proteger os empregados.

“O resultado da pesquisa não foi uma surpresa, infelizmente, mas não deixa de ser espantoso. Já sabíamos que a pressão por metas, a sobrecarga de trabalho e o assédio moral adoeciam os empregados, mas o quadro piorou muito durante aquele período”, afirmou Takemoto.

Assédio sexual e queda da gestão

O desgaste da gestão atingiu seu ponto máximo em 2022, após denúncias de assédio sexual envolvendo Pedro Guimarães.

As acusações tiveram repercussão nacional e ampliaram as críticas relacionadas ao ambiente organizacional da Caixa durante o período. Reportagem publicada pela jornalista Andreia Sadi, no portal G1, descreveu relatos de constrangimentos, intimidação e assédio associados ao modelo de gestão implantado no banco.

Diante das denúncias, a Fenae, a Contraf-CUT e outras entidades representativas cobraram investigação rigorosa, acolhimento às vítimas e responsabilização.

Em entrevistas ao Fantástico, Sergio Takemoto reforçou a necessidade de proteção às empregadas e de combate permanente a qualquer prática de assédio dentro da Caixa.

Pedro Guimarães deixou a presidência do banco em junho de 2022.

Para as entidades representativas dos empregados, o período ficou marcado por forte tensionamento nas relações de trabalho, conflitos envolvendo direitos históricos e crescente desgaste do ambiente interno da Caixa.

“A atuação das entidades durante aquele período foi permanente. Houve mobilização em defesa dos empregados na pandemia, na luta pelo Saúde Caixa, na defesa da governança da Funcef e também diante das denúncias gravíssimas de assédio. Foram anos de muita tensão e resistência”, conclui Takemoto.

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