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27/11/20 18:57 / Atualizado em 27/11/20 19:41

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Luta contra o racismo no setor bancário mira na refundação nacional, aponta live da Fenae do mês da consciência negra

Realizado nesta quinta-feira (26), debate teve o objetivo de mobilizar os empregados da Caixa e a categoria bancária no movimento contra o racismo institucional

É como disse Zumbi dos Palmares (1655-1695): “Nascer negro é consequência, ser negro é consciência”. Partindo dessas palavras do maior símbolo da luta contra o racismo no Brasil, na perspectiva de refundação nacional em patamares opostos ao atual, a Federação Nacional das Associações do Pessoal da Caixa Econômica Federal (Fenae) realizou na noite desta quinta-feira (26) a live do mês da consciência negra, com transmissão ao vivo pelo Facebook e pelo Youtube. O encontro foi norteado pelo debate sobre a necessidade de construção da igualdade racial no sistema financeiro nacional e no âmbito da sociedade brasileira.

O bate-papo online foi mediado pela jornalista Lis Weingartner e contou com a presença dos seguintes convidados: Rachel Weber (diretora de Políticas Sociais da Fenae), Rita Lima (diretora de Relações do Trabalho da Fenae e secretária de Organização e Suporte Administrativo do Sindicato dos Bancários do Espírito Santo), Almir Aguiar (secretário de Combate ao Racismo da Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro – Contraf/CUT) e Régia Mabel de Freitas (mulher preta feminista antirracista e doutora em Difusão do Conhecimento e pesquisadora de Relações Raciais da Universidade Federal da Bahia).

Ao abrir os trabalhos do evento virtual, Rachel Weber foi direto ao ponto: “Reconhecer o racismo é fundamental para que se consiga enfrentá-lo”. Ela opinou, na ocasião, que a luta contra a discriminação racial é de todos, pois não dá para negar as diferenças. E ressaltou: “Precisamos reconhecê-las e fortalecer a resistência contra o aprofundamento da opressão de negros e negras, buscando a democracia racial no país”.

Rachel Weber citou números para exemplificar de como ocorre o racismo no âmbito da Caixa. Ela explicou que, em um universo de 84,2 mil empregados, existem apenas 1.124 mulheres negras trabalhando no banco público, como resultado de um racismo estrutural. “É preciso, cada vez mais, descobrir maneiras de agir no ambiente de trabalho com práticas antirracistas. Isso é imprescindível, por exemplo, para reforçar a luta contra a privatização da Caixa, principal operadora de políticas públicas e sociais do Estado brasileiro”, registrou. Em seguida fez uma indagação: “Qual é a cor de pele majoritária das pessoas que vão perder com a venda de partes ou do todo do maior banco público e social do Brasil?”.

Para a pesquisadora Mabel Freitas, na condição de militante negra antirracista, falar de consciência negra é saudar os ancestrais. Ela disse que o título de doutora não a blinda do racismo, acrescentando que a data de 20 de novembro saúda o movimento protagonizado por Zumbi dos Palmares. Segundo ela, o debate instigado pela live da Fenae precisa ser fomentado o tempo inteiro e deve extrapolar o período de um mês, pois a data do Dia Nacional da Consciência Negra é simbólica.

“É importante entendermos que se trata de uma diária consciência negra. Estamos, neste encontro virtual, realizando o sonho dos ancestrais. Falar de racismo é falar também de ambiente de trabalho, que, muitas vezes, é adoecedor e perverso. Urge, portanto, que esse debate seja fomentado”, argumentou.

Na luta contra o racismo, a pesquisadora baiana perguntou em que situação ou momento teoria e prática coadunam? Ela defendeu a necessidade de atuação em uma perspectiva plural nas universidades e em outros segmentos ou espaços. “O lugar de socializar é o de estar juntos, conforme propõe a filosofia africana ubuntu, sustentada pelos pilares do respeito e da solidariedade, segundo a qual eu sou porque nós somos”, ponderou. Em tempo: ubuntu significa humanidade para com os outros. No ambiente das aldeias africanas, uma pessoa com ubuntu tem consciência de que é afetada quando seus semelhantes são diminuídos ou oprimidos.

Segundo Mabel Freitas, não tem como se falar de raça sem tratar de outras assimetrias sociais. A pesquisadora esclareceu que uma mulher preta e pobre vai sofrer racismo sem hierarquizar, diferente de uma mulher preta e rica, que também sofre racismo. “O racismo, cada vez mais, apresenta tecnologias evoluídas”, resumiu.  Ela defendeu a tese de que os saberes não são hierarquizados e afirmou que, quando houver essa compreensão, a luta contra o racismo tende a avançar. E concluiu: “Quando se pensa no coletivo, há a possibilidade de alcançar outras instâncias”.

Na visão de Almir Aguiar, da Contraf/CUT, as perspectivas trazidas pela academia e pela militância apenas confirmam que, mesmo com a abertura de espaços institucionais para a população negra, por conta das políticas afirmativas dos governos Lula e Dilma, com a contratação de mais negros e negras por concurso público, ainda é preciso avançar bastante para pôr fim ao racismo e às desigualdades.

De acordo com o dirigente, a discussão sobre a invisibilidade negra no sistema financeiro foi deflagrada no momento do desenho do “Rosto do Bancário” com a divulgação do Censo da Diversidade, como resultado de campanhas nacionais da categoria bancária, quando foi revelado que o negro não existe como trabalhador, principalmente nos cargos de chefia. E completou: “A cor da pele é um impeditivo para a ascensão profissional de negros e negras no setor bancário. O trabalhador negro ganha, em média, 68% do salário do trabalhador branco, conforme foi apontado por pesquisa do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese)”.

Almir Aguiar afirmou que, mesmo em Salvador – na Bahia, cidade predominantemente negra, há muito pouco trabalhador negro e trabalhadora negra nas unidades bancárias.

No Brasil, de acordo com Rita Lima, o Estado se perpetua como o principal promotor do racismo nas estruturas econômicas, jurídicas, executivas, legislativas e até na educação. Afirmou ainda que, nos bancos, a situação não é diferente. Citou que na Caixa, de um contingente de 84 mil empregados, apenas 21% é de trabalhadores negros. “É fato: os bancos públicos têm avançado muito pouco em políticas de inclusão. É preciso exigir, principalmente do setor público, outras políticas que efetivem, deem visibilidade e empoderem a população negra, com muitos serviços prestados à Nação desde os idos de 1500”, relatou.

Para Rita Lima, a luta pela igualdade racial dentro dos bancos precisa ser assumida pelas entidades representativas, para que todos os trabalhadores, independentemente da cor da pele, sejam tratados com respeito e equidade. A dirigente conclamou a Fenae a investigar, no ambiente de trabalho da Caixa, quem são os negros e onde eles estão.

“Não apenas saber quanto somos. Antes, é preciso saber onde estamos, o que fazemos e o que pensamos sobre o que fazemos. Essa é uma lacuna do resultado do balanço trimestral de 2020 da Caixa: diz quanto somos – negros, pardos, mulheres, homens e até a idade, mas não diz, quando se refere às chefias, onde estão os negros. Isso é sinal de invisibilidade. Queremos acabar com essa situação de racismo na Caixa e em outros bancos”, declarou a diretora de Relações do Trabalho da Fenae.

A conclusão do debate sobre o mês da consciência negra é a de que, sempre na luta contra o racismo institucional, a Fenae e outras entidades do movimento nacional dos empregados da Caixa têm um compromisso de longa data no combate às discriminações de qualquer tipo, por entender que essa prática não beneficia a classe trabalhadora, independentemente do sexo, da cor da pele, da orientação sexual, de ter ou não uma deficiência e independentemente da idade. As discriminações favorecem apenas aqueles que detêm o capital e os que concentram as riquezas e segregam os trabalhadores.

 

 

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