FAMA 2018

Acidificação dos oceanos: um grave problema para a vida no planeta

Acidificação dos oceanos: um grave problema para a vida no planeta

​​​​​​​Nos últimos 150 anos, a acidez dos oceanos aumentou 30% - isso afeta todo o ecossistema marinho e pode acabar com toda vida marinha

Nos últimos 150 anos, a acidez dos oceanos aumentou 30% - isso afeta todo o ecossistema marinho e pode acabar com toda vida marinha

A principal causa da acidificação é a emissão da queima de combustíveis fósseis, especialmente a liberação de CO2. As águas oceânicas absorvem 26% das emissões de gás carbônico emitidos no planeta.

Quando pensamos nas emissões de dióxido de carbono (CO2), fatores como o efeito estufa e o aquecimento global já vêm à cabeça. Mas as mudanças climáticas não são os únicos problemas causados pelo excesso de CO2 na atmosfera. O processo de acidificação dos oceanos é extremamente perigoso e pode acabar com a vida marinha até o fim do século (veja o vídeo no fim da matéria).

A acidificação começou desde a primeira revolução industrial, em meados do século XVIII, quando a emissão de poluentes aumentou rápida e significativamente graças à instalação das indústrias por toda Europa. Como a escala de pH é logarítmica, uma leve diminuição neste valor pode representar em porcentagem, variações de acidez de grandes dimensões. Dessa forma, pode-se dizer que desde a primeira revolução industrial, a acidez dos oceanos já aumentou em 30%.

Mas como se dá esse processo? Estudos demonstram que, ao longo da história, 30% do CO2 emitido pela ação do homem vai parar no oceano. Quando a água (H2O) e o gás se encontram, é formado o ácido carbônico (H2CO3) que se dissocia no mar, formando íons carbonato (CO32-) e hidrogênio (H+).

O nível de acidez se dá através da quantidade de íons H+ presentes em uma solução – nesse caso, a água do mar. Quanto maior as emissões, maior a quantidade de ions H+ e mais ácido os oceanos ficam.

Vida marinha em risco

Qualquer tipo de mudança, por menor que seja, pode mudar drasticamente o meio ambiente. As mudanças de temperatura, do clima, do nível de chuva ou até o número de animais podem causar o total desequilíbrio ambiental. O mesmo pode ser dito sobre a alteração do pH (índice que indica o nível de alcalinidade, neutralidade ou acidez de uma solução aquosa) dos oceanos.

Estudos preliminares apontam que a acidificação dos oceanos afeta diretamente organismos calcificadores, como alguns tipos de mariscosalgascoraisplânctons e moluscos, dificultando sua capacidade de formar conchas, levando ao seu desaparecimento. Em quantidades normais de absorção de  CO2  pelo oceano, as reações químicas favorecem a utilização do carbono na formação de carbonato de cálcio  (CaCO3), utilizado por diversos organismos marinhos na calcificação. O aumento intenso das concentrações de  CO2 na atmosfera, e consequente  diminuição de pH das águas oceânicas acaba por alterar o sentido destas reações, fazendo com que o carbonato dos ambientes marinhos se ligue com  os íons H+, ficando menos disponível para a formação do carbonato de  cálcio, essencial para o desenvolvimento de organismos calcificadores.

A diminuição das taxas de calcificação afetam por exemplo o estágio de vida inicial destes organismos, bem como sua fisiologia, reprodução, sua distribuição geográfica, morfologia, crescimento, desenvolvimento e tempo de  vida. Além disso, afeta também a tolerância a mudanças na temperatura das águas oceânicas, tornando-os mais sensíveis, interferindo na distribuição de espécies mais sensíveis. Ambientes que naturalmente apresentam altas concentrações de CO2, como regiões vulcânicas hidrotermais são demonstrações dos ecossistemas marinhos futuros, apresentando baixa biodiversidade e elevado número de espécies invasoras.

Uma outra consequência, advinda da perda de biodiversidade de ecossistemas marinhos é a erosão de plataformas continentais, que não apresentarão mais corais que ajudam a fixar os sedimentos. Estima-se que até 2100, cerca de 70% dos corais de águas frias estarão expostos a águas corrosivas.

Por outro lado, outras pesquisas apontam para a direção oposta, afirmando que alguns microrganismos se beneficiam com esse processo. Isto se deve ao fato de que a acidificação dos oceanos possui também uma consequência que é, para alguns micro-organismos marinhos, positiva. A diminuição do pH altera a solubilidade de alguns metais, como por exemplo o Ferro III, que é um micronutriente essencial para o plâncton, tornando-o assim mais disponível, favorecendo um aumento da produção primária, que acarreta em uma maior transferência de CO2para os oceanos. Além disso, o fitoplâncton produz um componente chamado dimetilssulfeto, que ao ser lançado para a atmosfera contribui para a formação de nuvens, que refletem os raios solares controlando o aquecimento global. Este efeito é positivo até que sejam reduzidas as absorções de CO2 pelo oceano devido à saturação deste gás nas águas, situação sob a qual o fitoplâncton, pela menor oferta de Ferro III, produzirá menos dimetilssulfeto.

Mais prejuízos econômicos

Em suma, podemos dizer que o aumento da concentração de dióxido de carbono na atmosfera termina por aumentar a acidez e temperatura das águas oceânicas. Até certo ponto, como vimos, isso é positivo, pois aumentará a solubilidade do Ferro III que é absorvido pelo fitoplâncton para a produção de dimetilssulfeto, que contribui na redução da minimização do aquecimento global. Ultrapassado esse ponto, a saturação de CO2 absorvido pelo ambiente marinho somado ao aumento da temperatura das águas altera o sentido das reações químicas, fazendo com que menores quantidades deste gás sejam absorvidas, prejudicando organismos calcificantes e aumentando a  concentração do gás na atmosfera. Por sua vez, esse aumento contribuiria para intensificar os efeitos do aquecimento global. Dessa forma, é criado um ciclo vicioso entre a acidificação dos oceanos e o aquecimento global.

Além de todos os impactos já descritos, com a diminuição do pH oceânico haverá também o impacto econômico, já que comunidades que se mantém à base de eco-turismo (mergulhos) ou de atividades pesqueiras serão prejudicadas. 

A acidificação dos oceanos pode também afetar o mercado global de créditos de carbono, uma vez que prejudicado o depósito natural de CO2 nos oceanos, maiores quantidades deste gás se concentrarão na atmosfera, fazendo com que os países arquem financeiramente com as consequências.

Ainda sobre o depósito natural de carbono, a formação de conchas de organismos calcários é interessante economicamente pois com a morte destes organismos, elas são depositadas no leito oceânico, armazenando carbono por longos períodos de tempo.

Tecnologia de mitigação

A geoengenharia desenvolveu algumas hipóteses para acabar com esse problema. Uma delas é usar o ferro para “fertilizar” os oceanos. Dessa forma, as partículas desse metal estimulariam o crescimento dos plânctons que, por sua vez, absorveriam o CO2 que, ao morrer, levaria o gás carbônico para o fundo do mar.

Outra alternativa proposta foi a adição de substâncias alcalinas nas águas dos oceanos para equilibrar o pH, como pedra calcária esmagada. Porém, segundo o Professor Jean-Pierre Gattuso, da Agência Nacional de Pesquisas da França, este processo poderia ser eficaz apenas em baías com troca limitada de água com o mar aberto, o que daria um alívio local,  mas não é prático em escala global pois consome muita energia, além de ser uma alternativa cara.

Na realidade, as emissões de carbono deveriam ser o foco da discussão. O processo de acidificação oceânica não afeta apenas a vida marinha. Povoados, cidades e até mesmo países são totalmente dependentes da pesca e do turismo marítimo. Os problemas vão muito além dos mares.

Atitudes incisivas se fazem cada vez mais necessárias. Por parte das autoridades, leis sobre níveis de emissão e fiscalizações cada vez mais rigorosas. Pelo nosso lado, diminuir nossa pegada de carbono com pequenas medidas, como utilizar mais transporte público, principalmente em veículos os movidos a fontes de energia renováveis ou optar por alimentos orgânicos, que sejam provenientes da agricultura de baixo carbono. Mas todas essas escolhas só são possíveis caso a indústria altere suas formas de lidar com os recursos naturais e também priorize a produção de bens que utilizem matérias-primas sustentáveis.

fonte texto: Ecycle
fonte ilustração: Água sua linda

 

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