literatura
Vânia de
Freitas Dantas, nasceu em Uberlândia/MG no dia 7 de
abril de 1970. Reside no bairro Aparecida, na cidade de Uberlândia/MG.
Trabalha na Caixa desde junho de 2004, é casada e mãe
de dois filhos.
Escritora de crônica e poemas em estilo livre, sintéticos
e ricos em metáforas. Especialista em filosofia clínica,
pesquisadora da atividade mental e do comportamento humano. Colaboradora
da home page da Filosofia Clínica (psicoterapia que se baseia
na filosofia). Professora do ensino superior "Ministrante de palestras
e oficinas na área de educação.
Contato:
(34) 3239-3086
vania.dantas@caixa.gov.br
Trabalhos:
FULMINANTE
O homem se apaixona pela mulher de ombros
largos
rosto quadrado, traços oblíquos
cabelo comprido, sobre os seios,
matizado pelo sol
e por inúmeras tinturas.
Quadril delicado,
só pra marcar a cintura.
Pele de seda
dentes de marfim
para seu músculo róseo.
Olhares lânguidos
sobre sorrisos íntimos.
Mãos ternas sobre o colo recatado.
Pés macios.
Beija-lhe o peito do pé, em respeito,
como quem beija as costas da mão;
sobe-lhe a perna esguia
o amante aceito,
imaginando se o dado
confere com a expectativa.
Maraísa colorida.
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CISQUINHO
Nessas mãozinhas pequenas,
mãozinhas como um cisquinho
dentro da minha mão;
nessas mãozinhas ainda
passarão muitos sóis,
chuvas levadas pelo vento
e tanto frio de junho.
Essas mãozinhas pequenas
ainda vão se encher de terra,
vão puxar a água,
segurar as cores
e alisar os papéis.
Essas lindas mãozinhas
tão pequenas pra mim
ainda serão fortes;
vão guiar outras mãozinhas
e, um dia,
fechar meus olhos.
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O
HOMEM IDEAL
O homem ideal é andrógino;
não se importa com os valores banais
do homem - H.
Reveste-se com a capa do ser integral
e remete a muito mais de essência
que de erro.
É tranqüilo,
consciente da intencionalidade dos atos,
confia nos acasos e intuições
que lhe são os guias.
O homem ideal é uma projeção múltipla
de caráteres.
Tem as qualidades fraternas dos anjos
e preocupa-se em livrar o espírito
dos desandos sociais.
Esse homem ideal
nem é homem ou mulher;
é um encontrar do divino e do obsceno
num canto ilimitado
de uma nota só.
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LUZES
Pelos quadradinhos da biblioteca
olho as luzes da cidade
que ainda não domino.
As luzes das quais me sinto dona
por elas subjugada.
Essas luzes sem miopia
são bem definidas.
Cresci junto com essa urbanização
e me orgulho
quando preferia ser modesta.
Queria alguém para conversar
as coisas de dentro
mas as almas são opacas
e eu não.
Sou as luzes agudas que,
quando criança,
via camurçadas.
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MULHER
Mulher, rainha da fantasia.
Precisa ser ser do ar,
pluma esquecida de sua natureza densa.
Com palavras, sonha carinhos.
Pra palestra, que vai levar?
Um conteúdo de paixão,
talvez por si mesma,
adornada de bolhas de sabão e flores.
Em breve e de novo,
a espera eterna
terá que fechar a janela.
A palavra que sorri,
a voz doce,
carinhosa,
terna,
chegando mais perto,
envolvendo,
acariciando,
mesmo que seja redundante, tudo isso é pouco.
Lábios como pétalas
de ombro a outro,
deslizando pela base do pescoço,
fios de cabelo,
orelha,
cristais do colar,
sobe pela correntinha de búzios e sementes,
e um beijo
por um beijo.
Uma saudade insone que respira longo,
estirada feito gato, indolente
nesse calor de forno.
Qualquer coisa na tv,
só vê os pensamentos passarem.
Sua história é mais linda porque a sente.
Uma pluma com talco cor de rosa pelo corpo.
O aroma,
o toque macio;
um desejo transparente
néon lilás.
Imagine... e me diga.
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EU
E O OUTRO EU
Preciso beber, anestesiar minha alma.
Minha alma rebelde, que quer o mundo
e sei que não devo.
Mas eu sei que eu posso
e eu sei que eu quero.
Nem preciso beber, já estou ébria
de um punhado de encucações.
Minhas duas partes rivais.
Parem de brigar, que não agüento mais -
diz a minha vida.
Minha alma, que vai prevalecer no tempo,
sabe que vencerá.
E pra ela não importa o tempo.
A ansiedade é do corpo
e o coração é que sofre
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RETALIAÇÃO
As cores, os matizes esquecidos nos catálogos
as letras que não se usa
os gestos que não se arrisca
o tato que não vira contato.
O ser
o respirar
entrecortado
pela metade.
O objetivo lá
não é só lua
nem queijo
nem crateras.
Pegue minha mão
e verá que danço
danço por dentro
uma cantiga de roda liberta
que canta alto,
na infância
e volta-se a todos
para dizer:
eu tenho direitos
e vou executá-los agora!
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GRADES
Essas formas bem traçadas
das casas novas
ainda vão ficar pra trás.
Será a lembrança
de um tempo
quadradinho
de grade preta bonita.
Ainda vão achar
que mais parece prisão
a cadeia da família;
a prole olhando a rua
cercada de solidão.
Os menininhos vendo os passantes
pedindo com os olhinhos
um pouco de atenção,
um carinho,
mesmo outro olhar
de consideração.
Tende pena do menininho
fechado também outrora
pela grade vertical.
Ele quis escalá-la e não pôde.
Acode, a vida
é um obstáculo contínuo
sempre à sua frente.
Tende pena do menino;
ele ainda sofre só.
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GRADES
II
Hoje, a grade preta
já caiu, ainda bem.
O menino, agora moço,
busca horizontes além-casa.
Quem cuidará desse coração de menino
solto, lá na estrada?
Quem chorará
com ele, no hospital,
estando longe a namorada?
Esse caminho da gente
de chuva e de vertigem
é um torneio de encontros
e despedidas.
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