literatura
A
funcionária aposentada da Caixa em Santa Catarina, Urda
Alice Klueger, não é escritora de primeira
viagem. Possui 11 livros publicados, entre romances, crônicas,
contos e relatos históricos de lugares por onde viveu ou andou.
Urda é economista com especialização em História
e faz parte da Academia Catarinense de Letras, do Instituto
Histórico e Geográfico de Santa Catarina, da União
Brasileira de Escritores e da Associação de Jornalistas
e Escritoras do Brasil. Tem 50 anos de idade, sem filhos, e escreve
regularmente para o jornal "A Notícia", de Joinvile/SC
e "Expresso das Nove", de Açores, Portugal.
Contatos:
(47) 322-8149
urda@flynet.com.br
Conto
O
DIA DE FAZER DOCES-DE-NATAL
O
DIA DE FAZER DOCES-DE-NATAL
Hoje em dia, qualquer supermercado vende doces-de-Natal,
em saquinhos de plástico ou bandejinhas, de modo que as donas-de-casa
já não precisam mais gastar um precioso domingo de Dezembro
para fazê-los.
Na minha infância, porém, fazer doces-de-Natal era um dos
rituais do Advento. Eles eram feitos num Domingo, quando toda a família
estava em casa e podia ajudar, e gastava-se um dia inteiro na sua confecção.
Eu nunca gostei de acordar cedo, e, assim, quando saía da cama,
minha mãe já estava preparando a primeira massa do doce-de-Natal,
misturando os ingredientes de uma receita que ainda possuo, antiga receita
que, calculo, tenha séculos de existência. Era uma massa
amarela, em que ia trigo, ovos, açúcar e outras coisas,
e que levedava com sal amoníaco, estranha coisa que se comprava
por grama, na venda mais próxima, à qual chamávamos
de "salamonico".
A casa da gente virava de pernas para o ar, no dia de fazer doces-de-Natal,
com a mãe da gente a fazer massas e mais massas, o pai da gente
a esticar as massas com o rolo de macarrão, e a gente a fazer
confusão, cortando as massas esticadas com forminhas de ferro,
transformando-a em pinheirinhos, papai-noéis, anjos e estrelas.
Cada figura cortada era colocada em formas de fazer cuca, velhas formas
enegrecidas pelo tempo e pelo forno, nas quais se passava gordura e
se polvilhava com farinha-de-trigo, antes de deitar nelas os docinhos.
Chegava, então, a vez do forno, grande forno de tijolos onde
se fazia pão nos tempos normais, nas que naquele dia de confusão
ficava lotado de formas e mais formas de doces-de-Natal. Era necessário
vigiar-se o forno para que os docinhos não assassem demais, ao
mesmo tempo que se continuava fazendo massa, esticando massa, cortando
massa, a mãe da gente brigando porque se estava cortando errado
a massa, todo mundo ficando nervoso dentro de casa quando a coisa se
acelerava com as primeiras formas saindo do forno.
De tarde, vinha a parte melhor: docinhos assados, era tempo de enfeitá-los.
Havia uma receita de glacê própria para eles, e punha-se
todo o mundo a bater glacê, e nós, crianças, lambíamos
mais glacê do que batíamos, e de novo a mãe da gente
ficava braba e a gente saia apanhando. Glacê pronto, gente grande,
responsável, como minha mãe e meu pai, passavam o glacê
cuidadosamente em cada docinho, enquanto que nós, crianças,
ficávamos encarregadas de enfeitar os doces com açúcar
colorido. Cada cor de açúcar era colocado num tigelinha
de pirex, e nós íamos escolhendo as cores e enfeitando
os doces. E claro que botávamos tanto açúcar colorido
na boca quanto no glacê fresco, ficando com a língua azul,
roxa e verde, e antes de acabar a atividade, todos já tínhamos
apanhado de novo.
Formas e mais formas de doces enfeitadas voltavam ao forno, para secar
o glacê, e lá pelo final da tarde estávamos com
um gloriosa coleção de doces-de-Natal prontos. Com um
suspiro, minha mãe os guardava em grandes latas que existiam
exclusivamente para isso, onde eles se manteriam como novos por muito
tempo, e a cada dia comeríamos alguns, e eles durariam até
lá por Janeiro ou Fevereiro.
Cansada de se incomodar conosco o dia inteiro, minha mãe nos
mandava para o banho e ia fazer o jantar. Continuávamos com as
língua roxas, azuis e verdes, e tínhamos, cada um, apanhado
diversas vezes naquele dia, mas que dia feliz que tinha sido! Aquele
dia de fazer doces-de-Natal era a certeza de que o Natal estava chegando
mesmo, de que Papai Noel logo viria, de que a magia chegara definitivamente
e estava no ar, acima de nós, esperando pela noite de Natal.
Depois do banho, já com roupas limpas, bem passadas a ferro,
dávamos um jeito de nos comunicarmos com os primos da vizinhança
- doce-de-Natal era uma coisa que se fazia em quase todas as casas no
mesmo dia - e todos eles estavam com as língua coloridas, todo
tinham apanhado, e todos estávamos felizes. Então ouvíamos
as cigarras cantando nas árvores próximas, e sabíamos
o quanto aquele dia fora bom!
Fico com muita pena quando vejo, hoje, os doces-de-Natal prontos, nos
supermercados. Perdemos um dia lindo das nossas tradições
- as novas gerações já não lambem mais tigelas
de glacê, nem apanham mais das mães num dia de Dezembro
cheio de cigarras cantando.
Blumenau, 08 de Dezembro de 1997.
Urda Alice Klueger
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