literatura

Terezinha
Pereira entrou para a Caixa em 1978, em Pará de Minas,
onde nasceu.
Hoje, casada, aposentada, dois filhos criados, dedica-se a escrever
e a traduzir escritos dos outros, com o pseudônimo de Raquel França
Telles. Tem diversos contos premiados em concursos literários
no Brasil e em Portugal. O último deles, "Conto
de Janeiro", primeiro lugar nos XIII Jogos Florais de Algarve
(Portugal), no ano passado. Com dois livros publicados e contos inseridos
em 16 antologias, Terezinha acaba de lançar "Em Confidência",
que pode ser adquirido por reembolso postal, através do e-mail
terezapereira@nwm.com.br.
Contatos:
(37) 3231-2153
terezapereira@nwm.com.br
CONTO
DE JANEIRO
Terezinha Pereira
Morrer todo mundo um dia vai. Sempre soube disso. Mas,
nesse dia a frase feita, dita, ouvida, reouvida, atingiu de pungente
meus ouvidos. Ou a mente. Ou a razão. Não fosse o coração.
Essa história de morrer. Ser chorado por um bocado de gente que
já está pensando em como deverá ser distribuído
seus pertences, em quanto vale a casa onde você mora, em quem
vai ficar com aquele relógio de ouro que havia sido do avô,
e depois ser levado para a morada final dentro de um caixote de madeira
todo fechado é de mexer com a idéia. Razão. Mente.
Não fosse o coração.
O avô fabricava caixão. Já no fim da vida. Segundo
marido da avó, perdeu fazenda e meia jogando. De tudo. Bicho,
baralho, loteria. Jogou até a sorte grande. A única sorte
grande saída na cidade em toda sua existência. Se sonhou
ganhar, sonhou de sempre desde. Quando casou-se com a avó, de
dote levou cinco filhos e fazenda inteira a menos de légua da
cidade. A mulher nada levou a não ser dois filhos do primeiro
marido e duas mãos danadas de boas para fazer quitanda. Enquanto
o avô desapossava gado, pasto, roças de milho e de mandioca,
a avó cuidava dos cinco filhos dele, de seus dois e das cinco
filhas que vieram a ter. À família, deu de comer e de
vestir com a mão na massa.
De pagar conta de jogo a avó estava até aqui. Nem deu
crédito ao cambista quando ele chegou de tarde trazendo o bilhete
de loteria encomendado pelo marido e que ia correr naquele dia. Impropérios
foi o que fez o homem ouvir. Ainda fê-lo de sair de carreira,
correndo na sua cola, sacudindo no ar a vassoura de arruda que usava
para varrer o forno e que o deixava perfumado. Não me volta mais
aqui com essa papelada que serve só pra atiçar fogo. Vem
pedir pagamento. Vem que vê. Não devo e não pago.
No dia seguinte, voltou o homem para contar que havia ficado rico. Ele
e mais um amigo que havia partido com ele o prejuízo do encalhe
do bilhete. Tanto dinheiro que dava para comprar aquela fazenda toda
e mais umas três de tamanho igual ou maior. Que voltasse de carreira
para trás foi o que a avó resmungou tirando a rodilha
de carregar lenha da cabeça. Não queria ela saber o que
ele podia fazer com tanto dinheiro. O que queria era deixar de pagar
contas. Que o cambista desgraçado, que Deus me perdoe, desse
meia volta e voltasse ligeiro pelo caminho de vinda.
No dia seguinte e durante mais um monte de dias depois
daquele, a avó teve de escutar as lamentações do
segundo marido, que nunca lhe havia despertado arroubamentos de amor
nem friagem ao longo da espinha. Parou ele de afrontá-la no dia
em que chegou com o tabelião com uma escritura de venda de um
quarto da roça ao dono da banca de jogo do bicho. Era só
avó assinar no xis. Conquanto não tivesse nada para pagar
que fosse tirar da boca dos filhos. Também aquele monte de letra
miúda, estava ela com mão suja de massa e ainda precisava
procurar os óculos. Foi só o tempinho de esfregar as mãos
no avental. O cambista rico mudou de cidade mas, demorou não
tempo quase nenhum para chegar o marido outra vez com o tabelião
levando-lhe para assinar escritura de mais um quarto da fazenda. Desta
vez o polvilho de mandioca estava esparramado no terreiro para secar.
Que morresse o cambista. Que ficasse com parte da fazenda, se quisesse
podia levar o polvilho todo também, e os pés de mandioca
do resto do terreno. Quereria ele também o gado que já
estava magrelo, faltava homem na roça. Custava nada esfregar
a mão no avental e dar um rabisco naquele papel da lei. Lei.
A única lei que ela conhecia era a barriga dos filhos.
Era perder mais e jogar mais o avô. Fiado. Tinha ainda meia fazenda
e um monte de jogos para jogar. Trabalho era só o de ir até
a cidade todo dia vencendo quase uma légua de caminhar. O que
nem deixava a avó irada. Pelo contrário. Homem que não
compra do que comer carece de comer bem longe. Boca de menos.
Tivesse o avô fazenda inteira teria jogado exato tudo. A metade
restante demorou pouco para ser dada quase de graça, no entender
da avó de graça, ao cambista que enricara com a sorte
grande. Queria ele empregar uns cobres na cidade natal e a plantação
de mandioca estava uma beleza. O cambista mais novo e o dono da banca
do bicho estavam por detrás do negócio. O avô ainda
não devia era só a alma. Era o tempo da avó desenhar
a firma no papel, que iria ser dona de uma casa de sete cômodos
na cidade, bem próxima da igreja. Dessa vez a avó usou
da esperteza de mãe. O marido estava entregando aos credores
o teto que lhes cobria do sol, do vento e da chuva. Deixar os filhos
todos ao relento, isso não iria permitir. Que o notário
escrevesse naquele papel que aquela casa de sete cômodos na cidade
tinha de ser dos seus sete filhos. Dois homens do primeiro casamento
e cinco filhas mulheres que tivera com o avô. Os filhos do primeiro
casamento dele já haviam caído na capital, cada um havia
se arranjado, e não precisavam ter registro nenhum na escritura.
Só assim que firmava com seu nome aquele papel. E que ficasse
sabendo o notário, todos os cambistas do mundo e todos os bicheiros
que o avô não tinha mais nada a vender. Nem a roupa do
corpo, que ela fazia questão de deixar ele só com duas
mudas. Nem o chapéu que ele tinha só um e vivia ensebado
com cheiro de ranço. Murcho, não teve o avô outra
alternativa. Ou morria com dois tiros do trabuco do zoobanqueiro ou
se estrebuchava na ponta da faca enferrujada do bilheteiro.
Meio tempo os dois filhos homens da avó foram arrumar a vida
na capital. Mesmo com a freguesia das quitandas aumentada, a comida
da avó ficava cada vez mais escassa. Não completou mês
inteiro na cidade e o avô estava de pés no chão.
De tanto andar pra lá e pra cá, os solados do único
par de botinas ficaram furados. Um dilema para a avó. Comprar
um par de botinas novas para o marido ou agüentar o homem dentro
de casa mexendo nas quitandas de encomenda, sentado numa cadeira em
cima do fogão enrolando cigarro de palha, era por um na boca
e começar a raspar o fumo para outro, tomando canecadas de café
doce e ralo, isso ele fazia o dia inteiro.
Dizer que depois de dez dias ela comprou-lhe um par de botinas novas
nem precisa. Que arrependeu-se deve-se. No dia seguinte ao que entregou-lhe
as botinas novas, um tio torto que morava na rua de baixo morreu de
repente. Havia acabado de comprar um par de botinas novas e não
tinha filho, nem ninguém. Recebeu-as de herança, pudera,
estava necessitado. A avó ficou injuriada de ver o marido no
maior desperdício, com um par de botinas de reserva. Para bater
pernas.
Demorou pouco, avó mandou chamar o vigário. Era primo
do marido. Veio ligeiro, apanhando a avó de surpresa. Havia acabado
de sair do banho, cabelos espalhados sobre os ombros. Quase uma indecência.
O padre vê-la desse jeito. Não gastou dois tempos para
juntar e torcer os cabelos com as mãos, abrir os grampos com
ajuda dos dentes e prendê-los no coque eterno. Relembrou ao padre
toda a situação. Havia se casado com um homem de posses
e precisava sustentar um malandro. Que olhasse suas mãos, seus
braços. Tudo cheio de marcas de amassar quitanda, varrer forno,
catar lenha nos pastos. Que usasse de sua influência na cidade
e arranjasse um serviço qualquer para aquele homem. As filhas
já estavam trabalhando na fábrica, a mais velha já
estava casada, a mais nova o vigário havia feito a esmola de
arranjar-lhe uma bolsa no ginásio, e querendo Deus, breve iria
virar professora de escola. Mas ela não agüentava mais trabalhar
tanto e ver-se sem dinheiro nenhum, nem para consertar as goteiras que
caíam em cima das quitandas, tinha de viver esparramando tabuleiros
para cobrir os assados, cuidar para o forno não destemperar devido
a água que lhe pingava por cima. Não havia colchão,
gaveta, graveto de lenha, lugar qualquer onde o avô não
achasse seu dinheiro sofrido. Além do mais, a casa recendia mofo.
Foi numa fábrica de óleo de algodão que o avô,
beirando os setenta anos de idade, entrou pela primeira vez num local
para trabalhar. Se não fosse, primeiro a insistência do
vigário, depois a influência do próprio, a vida
de trabalhador daquele homem não teria durado os dois anos que
durou. Pediu conta. A desculpa foi o cheiro forte do óleo. Dessa
vez a avó, que naqueles dois anos não havia colocado na
mão um tostão no resultado do trabalho do marido, mas
também deixara de ver seu dinheiro surrupiado, soube, ouvido
de um passarinho, que seu homem havia pedido conta na fábrica.
Foi explícita. Ele só entraria naquela casa se estivesse
trabalhando, nem que fosse de coveiro. Não foi de coveiro que
o marido arranjou trabalho. Foi numa fábrica de caixão.
Hoje, quando a frase dita que todo mundo um dia vai morrer bateu em
mim como algo isento de incertezas, lembrei-me do avô. Minha mãe
estava precisando de consertar um quarador. Pediu-me que passasse no
local de trabalho do avô e dissesse a ele para vir a nossa casa
com o martelo na hora do almoço, que ela havia feito umas bolas
de carne. Ele faria o conserto e almoçaria com a gente.
Foi a primeira vez que entrei naquela fábrica. Um galpão
enorme, pilhas de madeira por todo o lado. Quando o vi de longe fiquei
a observá-lo. Era alto, magro, olhos verdes, rosto enrugado,
cabelos ligeiramente cinzentos, lisos, nem curtos nem compridos. Usava
terno preto. O de sempre. Para ir à missa. Para ficar na praça
conversando com os amigos todas as noites. Para trabalhar. Com destreza
pregava o tecido roxo na madeira. No tempo em que fiquei a observá-lo,
dez minutos, meia hora, não sei, ele enfeitou duas tampas de
caixões roxos com galões de seda amarelos. Sorriu quando
avistou-me. Com sua voz rouca pediu que me aproximasse. Está
vendo. Essa é nossa futura casa. Mostrou o tecido acetinado branco.
Esse serve para cobrir caixão de anjinho. Naquela época,
quase todo dia via-se enterros de anjinhos. Naquele momento pensei que
um dia poderia vir a ser ocupante de semelhante caixa. Hoje, quando
lembro disso, sinto um arrepio. Queria era ser deixada de indez. Quando
terminou de cobrir mais um caixão, o avô olhou o relógio
que ficava no alto da parede e acabava de dar onze badaladas. Poderia
sair. Era seu horário de almoço. Caminhou em direção
a chapeleira com o martelo na mão. Por motivo algum sairia na
rua sem cobrir a cabeça com o chapéu. Ou sem levar pendurado
no braço o guarda-chuva, que era janeiro e o veranico estava
para acabar.
Naquela ocasião, com cinco, seis anos de idade, nunca havia eu
ouvido falar sobre a paixão pelo jogo e sobre a aversão
que o avô tinha pelo trabalho. Enxerguei a imagem de um homem
dedicado. Andei com ele pela rua comprida, carro nenhum, bicicletas
algumas, gente a pé de montão. Aceitou minha ajuda para
reparar o quarador. Passou-me os pregos, que desse umas marteladas,
ensinando-me como não acertar os dedos. Rejeitou o feijão
e o arroz quando servido. Encheu o prato de farinha de mandioca e foi
espetando com o grafo uma por vez as almôndegas ensopadas num
molho de pimenta malagueta. Teria comido meia dúzia delas depois
de passadas na farinha.
Desde aquele dia foram-se alguns janeiros. O avô habita sua morada
definitiva não sei desde quando, quem sabe levado num féretro
de brocado roxo, que ele próprio havia engendrado. Essa história
de morrer. Não entende mente, nem razão, muito menos coração.
Não fosse o coração.
Conto premiado :
1º lugar - XXIII Jogos Florais do Algarve/ 2001 - Portugal
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