literatura


O paranaense Antônio Francisco Moreira Neto é escriturário da Caixa em Curitiba. Solteiro, 40 anos, sem filhos, dedica-se à poesia nas horas de folga e já foi premiado em vários concursos. Entre eles, os dois últimos promovidos pela Febraban. Antônio entrou para a Caixa em 1989 e trabalha atualmente no Gises do Paraná.

 

Contatos:
(41) 362-6232
antoniofrancisco@brturbo.com

 

 

Todo amor é sagrado
As Claras Inidicações da Paixão Despontando em Tua Vida
Poema do Fim do Encanto
Poema do Amor em Gestação
O Éden de Minhas Paixões
Poema do Reencontro da Amiga Perdida
Elegia da Mulher Dona de Casa
Premeditação da Loucura
16 de Abril
Fractais

 


 

 

Todo amor é sagrado

Todo amor é sagrado
No meio de uma terra insensível e estéril
Todo sentimento e sacrilégio. Sortilégio.

Pulsando de paixão - até à loucura
A solidão por companhia
Lágrimas banham minha face

Meu coração contrito, confinado em si mesmo
Uma vontade de se consumir, morrer, sumir
No fim, um vazio

Se ao menos pudesse dizer:
Eu te amo
E, ao dizer,
Sentir um ecoar na tua alma !

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Poema do Fim do Encanto

Tentei parecer o mais casual possível
Exagerei no perfume, na roupa.
Já havia decorado passagens inteiras de "O Homem Sensual" e
"177 maneiras de enlouquecer uma mulher na cama".
Carrinho lavado, encerado - brilhando

Peguei-te em tua casa
No drive-in arrisquei um toque em teu rosto
Um beijo
Não fosse a forma como virou o rosto, mas o sorriso
Uma risada sarcástica que cortou como navalha

Disse: desculpe, pus o carro em movimento
Seguimos em silêncio
Antes de descer - e tu poderias apenas ter descido, acrescentaste:
- Odeio homens com um quê feminino - esta viadagem toda.
Apenas repeti: Sinto muito e parti

Assim que dei meia-volta
Constatei que tentava regar uma pequena flor com todo cuidado
Mas tu a pisaste e impiedosamente a mataste.
Lágrimas rolavam copiosamente em minha face.
Compreendi, num insight, que meu destino seria a solidão

Resigno-me ao meu destino
Desisto das mulheres
Opto pelo meu celibato
Sou um sacerdote sem batina !
Adeus voluptuosidade

Tentarei fazer do inefável a minha cátedra
Da mística a minha morada
Do cotidiano minha missa e de minha casa, meu retiro
Afasto-me do mundo

Acordo como um novo homem
Agora liberto das paixões
Um novo horizonte desponta
O sol na minha janela aquece meu sorriso
Calmamente, sigo para o trabalho
O futuro me pertence e aguarda novas vitórias sobre mim mesmo.

Não perco a fé no imponderável.

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Poema do amor em gestação

Quanto da lógica matemática habita em teu coração?
Elevar o sentimento a enésima potência
E ter as exatas raízes: sofrimento e solidão.

Fôssemos como os bichos - autênticos, espontâneos e não dissimulados
E repartiria uma tênue alegria
Mas somos homens ou mulheres e muralhas seculares impõe seu limite pétreo.

Quanto das frias abstrações permeiam tua alma?
Teu largo e espontâneo sorriso é prova de que arde uma chama no teu peito.
O brilho da luz dos teus olhos revela uma busca pelo intangível

Ou é tudo mentira !
Os poetas enxergam quimeras, utopias
Lado a lado com meu cavalo e um Sancho Pança imaginário, lá vou eu

Um Dom Quixote contemporâneo.
Um Cyrano de Bergerac às avessas - ao invés da vergonha de um nariz aquilino -
a vergonha de ter nascido antes ou depois de seu tempo.

A paixão consome minhas artérias, sufoca o peito, gela minhas veias
Um sonho de praias paradisíacas, sol e o vento tépido acariciando minhas têmporas
O marulho do oceano em meus ouvidos e o azul do céu em meus olhos

Deixei de desejar e o desejo ressoa como uma dissonância um tom acima do compasso.
Toda literatura repassada, revisitada.
E encontro-me numa tarde plúmbea recitando Salmos - busco a liberdade.

Quanto os vetores impulsionam tua trajetória?
Queria saber de ti. Se acordas alegre. Se tens sonhos proibidos. Se os romances foram experiência perenes, traumáticas ou insossas em tua vida.

Quantas variáveis delineiam o teu existir?
Quantos projetos realizados? Inacabados - muitos?
E o cansaço de apostar fichas em apostas perdidas.

Apenas a inércia de continuar jogando o jogo do existir.
Os romances acabando em grotescas e íntimas revelações a supostos amigos
Quanto da força contida das mais nobres emoções reverberam nos teus passos?

Quanto do mais doce e puro sentimento perfuma teu hálito?
Quanto das mais nobres emoções transparecem no teu olhar?
Quanto da mais excelsa alquimia é transmutada em tua voz?

Quanto das mais etéreas sinapses ecoam no teu cérebro?

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O Éden de Minhas Paixões

Passado o frêmito da paixão
Um vazio...
É tão revigorante galgar os montes dos sentimentos

Quando a magia do sentir se esvanece
Torno-me um homem comum
Aquele olhar mais profundo - perdido

O sentimento similar ao dos sobreviventes de muitas batalhas em guerra
Abandona-me
Este oscilar entre o Nirvana, a normalidade e o Hades me angustia

Quisera permanecer no Éden de Minhas Paixões.

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Elegia da Mulher Dona de Casa

Entre panelas, pratos
novelas, fraldas e amargura
preenches o teu dia

Entre muitos filhos não planejados
aceitos por imposição dos costumes

Incompreensíveis jogos de futebol
ronco dos motores de fórmula 1

Perguntas pela paixão que sumiu?
E o desejo que minguou.

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Busco a tristeza

Busco a tristeza
A lágrima cristalina fabricada à sombra
das mais perfeitas e excelsas emoções.

A solidão - esta eterna companheira.
Fiz um convite para que assentasse à minha mesa.
Aceitaste e esqueceste de partir.

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16 de Abril

Acordei às três da manha
Olhei para o lado
E passei as mãos pelos teus cabelos, tua púbis
Arrisquei uma carícia

Surpreendentemente tu não ficaste chateada
como é usual
O calor de todo teu corpo no meu corpo
O esplendor de tua paixão na minha

Levanto cedo, tu permaneces no leito
Sonho, sonho, sonho
Devaneio
Haverá lugar para a realidade

A caligrafia conhecida
Mil vezes reconhecida
Um lapso no tempo
O agora misturando-se à eternidade

À porta da transcendência
Após séculos de lutas, perdas e derrotas
A asa do arcanjo por garantia
Uma certeza de que a vitória é iminente.

Sem medo, temores, tremores
Sentindo que cada passo me aproxima do objetivo
Vislumbro teus olhos claros, teu cabelo luzidio
Tuas mãos, pés, pernas, braços -o corpo todo envolto em minhas carícias !

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AS CLARAS INDICAÇÕES DA PAIXÃO DESPONTANDO EM TUA VIDA

Acordaste pela manhã
Uma onda de inexplicável alegria invadiste teu ser
O amor sagrado nascido da paixão de um homem acolheste tua alma de outro lado da cidade
Estás sozinha?
Ainda que acompanhada, tu estás sozinha !
Saciado o desejo da carne, cansada estás
E um cansaço mais profundo de ser disputada como um naco de carne por bestas infernais.

Observai, vê em tua volta - um olhar mais penetrante enxerga tua alma e aspira teu amor
Desrespeitaste os sinais.
Preferiste ignorar as claras indicações da paixão despontando em tua vida.
Preferes ser o naco de carne de homens brutais?
Acaso um lampejo da transcendência traz uma lágrima cristalina no canto do teu olho?
Dentre os homens que te desejam, algum sugere um amor imorredouro, verdadeiro e eterno?

Fazes do sexo um fim em si?
És suficiente para ti ter mil homens?
Todos desejando ardentemente tuas carícias e tua atenção?
Além do instinto e dos amores delatados,
algo mais puro que o despertar da primavera se insinua em teu existir.
Um pouco mais de sensibilidade e perceberás..

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Poema do Reencontro da Amiga Perdida

P/ Eliane Döring


Tua lágrima é água cristalina acalentando meu coração
Óculos escuros te protegem da grotesca mediocridade
presente todos os dias

O toque das tuas mãos é roçar da relva
quando deitamos na grama num dia de começo de verão.
Teu passo, lépido; tua fala, incisiva; teu jeito, manso.

O contato de tua pele projeta desejos de liberdade.
Liberdade: deitar num banco de praça
e contemplar Sírius, Canópus e Alfa do Centauro.

Liberdade em definição:
caminhar ouvindo o marulho do mar
o calor do sol, a brisa forte contra o corpo areia sob os pés

No jogo das reinações das mulheres fatais
e na fria, nua e crua realidade cotidiana
Tua presença é eco de um cantar adolescente.

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Premeditação da Loucura


14.Abril.2001.
01:35 - Sábado de Aleluia - Madrugada


Ficarei louco
Sexta-feira - à meia-noite
Ficarei louco

Deixarei de lado o senso prático
E, meio apático - um pouco manhoso
Insinuar-me-ei no teu caminho

Sem dizer palavra, dar-te-ei um longo beijo na boca
Nossas línguas roçando despertarão um fogo lépido de paixão.
No sábado, buscarei ajuda médica, mas recusarei
Cuspirei os comprimidos só para prolongar este êxtase.

Domingo já terei embarcado, emborcado
e atirado para todos os lados em busca de teu amor.
Quiçá minha mãe - no além túmulo -
Sussurre algumas palavras que ecoarão doces em meus ouvidos.

Prisioneiro que sou de baixas paixões
Rotineiramente sucumbo às mais deliciosas perversões
Não temo o preço do pecado
Ainda que saiba ter os dias contados

Busco a transcendência, a quintessência
Atrapalho-me em rotas de sensualidade
Que não condizem com minha condição
De sacerdote da Ordem de Melquisedec.

Meu sonho de um sublime amor
E de uma eterna paixão
Foram soterrados.
Anos de paixões desenfreadas !

Segunda-feira, após algumas injeções
Amplictil, estradiol, testosterona
Faço cara de normal, sigo para a rotina:
O trabalho, a escola etc.

E, secretamente, mui secretamente
- planejo minha próxima loucura
- quando - meio anjo, meio demônio, esquadrinharei os sonhos
- perderei o sono

Jogarei o jogo das contas de vidro
- lobo da estepe que sou
Virarei a esquina mágica de meu inconsciente
E sorverei até a última gota de insensatez.

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Fractais

p/ Suzana Melim

Um lânguido e altaneiro vazio percorre minha alma
Cansei de procurar quimeras e tentar redescobrir o amor

Várias tentativas, infrutíferas respostas
Os deuses marcaram minha face com uma navalha
e determinaram um eterno perambular por caminhos indefinidos

Inútil lutar com o destino
Resignar-se à solidão ou
procurar as meretrizes
tênues matizes do sexo

Viver, viver, viver
A vida escorre em brumas na volúpia de minhas mãos
O tempo, este inexorável algoz, derrama suas horas

As horas viram dias, e os dias viram anos
Séculos
Há lugar para a eternidade enquanto vou montando num cavalo de aço?

Devem existir vampiros, demônios e outros habitantes das sombras
que tornem o cotidiano menos insípido
E criem um clima de cinema :
emoção e aventura, heroísmo e coragem

Conquanto, vou catando palavras na memória .
Tentando dar um sentido ao caos nosso de todo dia
Misturado às cotaçãos do dólar, aos sinais vermelhos e contrariado,
obedecendo ao mandamento de não desejar a mulher do próximo
resquícios de civilização judaica
calores indecentes, pudores, pudidícia :
cobrir teu tesão com mãos, boca, toques sensuais

Não tendo nada melhor para fazer num sábado de aleluia
uns olhos verdes e uma pele bem sedosa insinuam-se em minhas
lembranças


E como colocar em palavras um abraço pelas costas
na madrugada, cruzando a cidade
com uma princesa na garupa?
Retorno à adolescência

Saudade, saudade, saudade
Dói a vontade de um reencontro breve
Será isto a paixão?
Caminhar pelo insólito
sinto-me a encarnação de um anjo do apocalipse
derrubando gotas de sangue, germes de destruição
a semente da hecatombe

Acordes de Wagner
misturo Jesus Cristo do Roberto com Fredy Mercury
Armagedom


Continuo fazendo pactos de sangue
com Cristo e Satã
Buda e Belzebu

Eu, muitas lágrimas depois,
com a alma cristalina
o espírito leve, a mente lúcida
o corpo em razoáveis condições de uso
e ainda um arcanjo licensioso e algo promíscuo
insinuo-me pelos teus caminhos

Haverá um talvez?

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